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A SAUDADE É A NOSSA ALMA DIZENDO PARA ONDE ELA QUER VOLTAR...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

domingo, 20 de janeiro de 2008

Parto sem dor

"E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor
E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor "
Sérgio Godinho

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A minha casa.



Pela primeira vez na vida, tenho uma casa só para mim. E sorte das sortes encontrei uma que tem personalidade e consequentemente qualidades e defeitos marcados.
A minha casa é semi-velha a fazer de conta que é nova, é por assim dizer como uma starlette hollywoodesca que nunca chegou realmente à fama mas que com intuito de se manter jovem(porque nunca se sabe quando é que o produtor certo nos bate à porta), se foi sujeitando a recauchutagens praticadas por cirurgiões manhosos que a deixaram com um sorriso permanente e a quase impossibilidade de fechar os olhos.

Digamos, em termos quase práticos, que: sofre de humidade nos ossos, o que a leva a descascar as paredes; tem poucas janelas o que a deixa muito rabugenta, especialmente ao crepúsculo; tem tomadas que vão pela máxima "is better to burn out than to fade away" (o que leva a que seja díficil ligar a máquina de sumos recebida no natal dentro da cozinha e não me parece apropriado tê-la no quarto) e ainda por cima sofre de obstipação na sanita, este sim o problema mais grave de todos.

Ao mesmo tempo encantam-me outras das suas características; em primeiro lugar o facto de ser circular, podemos percorrer a casa toda sem voltar atrás porque nos deparamos com uma parede, há sempre uma porta (ah, mesmo que as fechaduras não funcionem muito bem e que se corra o risco de ficar preso na casa-de-banho, coisa sem demais de importância se formos a ver, estamos avisados, se fecharmos as portas é porque somos tolos!); depois adoro o facto de ter um quarto interior, exactamente no coração da casa, que tem uma janela maravilhosa... para a sala, mas não é uma janela qualquer, esta dá vontade de espreitar lá para dentro porque tem um ar atrevido e orgulhoso, de janela que se está bem marimbando para o facto de não se virar para a rua. Também temos a questão dos interruptores espalhados pela casa que aparentemente não servem para nada, pois por mais que lhes carreguemos não acendem nem apagam nenhuma luz que se possa ver, mas eu gosto de pensar que na verdade eles estão a funcionar noutra casa qualquer, e que sem querer estou a apagar a luz ao senhor que lê o jornal no sofá da sala ou a acender a luz àquele casal de adolescentes que se esgueirou para casa dos pais dela e que planeava fazer amor às escuras.

Mas o que mais gosto nesta minha casa é a possibilidade de conversas infinitas que ela proporciona. Sim, obviamente eu tenho algum peso aqui, sou actuante nestas conversas; ninguém vem para cá falar para as paredes com humidade, falam comigo; mas acho que esta minha casa tem um aconchego muito especial e uma respiração que facilita as palavras.

Abençoada casa com uma cozinha onde já se desfiaram memórias, histórias e pedaços de nós, onde se partilharam silêncios e olhares de uma beleza cansada enquanto se fumavam cigarros; bendita sala onde se pode ouvir aquela música que só nos apetece às três da manhã, sem acordar o mundo que habita dois andares acima e onde, com generoso vinho, se receberam os amigos; profano quarto com esquadria estranha e cama alta e impune, onde o brilho e a surpresa do teu olhar me fizeram enredar no teu cabelo.

Gosto desta minha casa...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Neste dia não quero acordar















"Estamos ambos a olhar para a mesma lua do mesmo mundo. Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim."


Sputnick meu amor
Haruki Murakami

Um dia antes deste dia, envolvida em conversa tardia com um amigo com quem revisitava lugares nossos, pensava para mim em surdina que tinha demasiado espaço entre as palavras. Que me sobravam vácuos que não conseguia preencher com respirações suficientes para que tudo fizesse sentido.
Pensava que estava a dormir, mas estava acordada. Perdida num limbo que me permitia estar sem ser.
Pois neste dia novo não quero acordar.
Porque sem estar, fui. Dormia sem saber e o sonho entrou na realidade em que pensava existir e revelou-me com um abraço que afinal estava do outro lado do espelho, na noite imaginada deste dia.
Os vácuos preencheram-se sem que eu tivesse intenções de que se fizessem cumprir promessas ou desejos lançados para o ar em tom de brincadeira.
O inesperado nunca se cumpre se nos sentamos à porta à espera que nos faça uma visita (já devia ter aprendido esta lição), surge quando viramos as costas e pensamos noutras existências.
Às vezes somos mais reais nos nosso sonhos, se eles nos apanham desprevenidos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Shall we dance?





A dama de Xangai

Orson Welles

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007




Festival 30 por noite
O nome das ruas
Teatro meia volta e depois à esquerda quando eu disser
11 (às 19h) e 12 (às 22h) de Janeiro 2008 no TeCA, Porto

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Era bom!

Hoje apetecia-me que as palavras me saíssem,
que os dedos corressem o teclado em passos de dança doidos,
e que tudo o que acontecesse fosse magia escrita, em palavras inefáveis e intocáveis.
Tenho tudo cá dentro! Juro!!!
Milhares de ideias alinhavadas e centenas de milhar de coisas para "dizer" de forma sedutora, inteligente, espirituosa e composta.
Mas elas hoje saem-me aos tropeços, empurradas umas pelas outras de forma desajeitada e bêbeda.
Logo hoje que me apetecia muito e estava disposta.
Merda para os nossos desencontros internos!
Não está a acontecer nada de especial... estou só a ser pateta.
Vou-me embora amuar para um canto e fazer de artista bloqueada.
P.S.: será que devo auto-mutilar-me um bocadinho para parecer mais verosímel a coisa de artista? Ou sair à rua, de mal com o mundo, e destratar os meus amigos mais frágeis?

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Queria ser-te...


Queria saber encontrar-te...
...por essas ruas que eu sei que percorremos a horas diferentes, e esbarrar em ti enquanto trauteava uma das tuas melodias, tornando uma recorrência em acaso (sim; estou sempre a cantar-te).
Queria saber dizer-te coisas inteligentes; com aquela voz que têm os viajantes cansados e experientes; transportar-te para os meus caminhos com a sabedoria de amante-mulher.
Queria ser profunda e obscura, para que continuasses sempre interessado no jogo de tentar decifrar o enigma que eu fosse, sem que, no entanto, quiseses verdadeiramente tirar o véu que me cobrisse.
Queria olhar-te como se não tivesse nada a perder, enquanto soltava uma daquelas gargalhadas roucas e profundas, como só as senhoras do cinema sabem fazer.
Beijar-te para que nunca mais esquecesses o meu sabor, nem a forma dos meus lábios nos teus; de maneira a que mais nenhuma boca parecesse verdade depois da minha.
Queria que me fizesses uma música velada e disfarçada, que cantasses em surdina, sozinho, na penumbra do teu quarto. E que só eu soubesse que era ali, naquelas palavras que algo de mim se escondia.
Conversar contigo em silêncios, olhar-te, sentir-te, quase perceber tudo.
Queria ter-te, queria ser-te.
Impressionar-te sem me perder, sem fazer de outra, sem te mentir aquele bocadinho... aquele, logo no princípio de tudo, em que fazemos moldes de cera de nós próprios, que pintamos com cores mais vivas do que aquelas que temos.
Queria tanto...

domingo, 11 de novembro de 2007

Poeira

"embora não pareça, nasci na tua rua e compreendo-te, e se vamos morrer, juro-te que sou teu irmão, teu vizinho, o companheiro de escola que sempre te quis em silêncio"
Santiago Gamboa
in Tragédia do homem que amava nos aeroportos (Contos Apátridas)

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

It's not a curse!

It's a blessing... Enjoy!

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

É aquela merda...*

Lília: É o que eu te digo, daqui a uns anos, ainda vamos ser mais felizes e nos vamos rir desta (daquela) merda toda!
Sílvia: Vai ser uma barrigada de riso - bufa!!! - Já nos estou a ver, solteiras, tias dos filhos dos Malícias da vida e ainda a discutir quem amou primeiro, o ovo ou a galinha!!!
Lília: É pá, espera lá, deixa-me só fazer aqui um parênteses (leva chapéu de avô) ah... outro!... eu ouvi por acaso uma palhinha e fazer amor com o fundo de um copo??? Foi isso??!! É que nem parece nosso. A imagem de marca da(s) nossa(s) noite(s)! O que uma "aquela merda" foi buscar e eis que... ai um beijo...era nisto que já tinhas por algum acaso pensado nesta noite, nesta vida.
Aí chegaram elas, as que não nos deixam, que nos amam, é mútuo...e tráz pacotinho de açucar e tudo...
Sílvia: Bem haja... algum açucar, algum azedo, alguma coisa... era só isso que a gente queria; a mistura agri-doce! Mas sim... F*ª@-se! venha mais uma, um... o que a gente pedir, não o que a gente leva. Quero exigir e ter, sem esperar, sem ter de pedinchar de joelhos... Bem haja o que não exige e dá, bem haja o que quer e tem, ai também vou fazer um (esta tá forte como o raio!!!). Amén! (ver a foto das virgens na regaleira...)
Lília: (em vários parênteses...) (mete-lhe açucar...) (mais ó raio dos brazucas aqui atrás. Diz esta que pegou quinze à noite, ainda dizem que está mal.) Vá lá, continua lá, vááááá... SIM TOU E ENTÃO?
Sílvia: Pois estás e muito... Não podes pegar no carro assim... LOL XD!!!! AI.... também tou!!!
Lembrete: Fazer caras para o XD.
Sílvia: Deixas-me falar grande caralho! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.... Faz-me um cigarro antes que te dê outra murraça na mama! A gente começou bem, mas tá a descambar... Onde é que tá o ovo? Onde tá "aquela merda"? Ai, desculpa, não está, nós é que estamos nela. Temos o quê? Fazes-me a merda do cigarro com a tua Sílvia? ...da-se que não se pode contigo, a tua sorte é que gosto do teu mau-feitio... Homem? Tás parva???? Alguém nos pega... Com este mau-feitio abençoado que temos as duas; ainda por cima juntas, é a dobrar! (Ai os brazucas... Já me estão a chatear, agora tão a falar da mãe e a gente a tentar ser criativa!!!)
(Lília não quer escrever, tá a tirar fotos.)
Sílvia: Anda lá, tanto chateaste agora escreve...
Lília: Aí filha (é mesmo assim)... eu ja não tenho nada para escrever... deixo cá o carro, né isso? olha a ti só te desejo menos de quatro anos... pronto...vá...
(LÍLIA TECLANDO NA MESA)
Lília: Diz-me a outra: ai f***-se, não está acontecer nada! Digo eu: aaaaaiiiiiiiii, que tenho de ir levantar dinheiro!
Sílvia: Então, vai lá, vamos acabar o cigarro... Ai, que tenho de arranjar isto tudo... ai jesus, ai meu deus...
Rui: foi? Então...!
(Ai, que alguém se meteu na conversa) x2
Sílvia: Onde é que tá o vezes?
Lília: Até pareces eu... Vou mijar. Então e não fazemos referência ao meu cabelo pintado só no alto da pinha - não te rias - pronto ja tá a referência feita. (a brazuca teve cólicas e a minha palhinha tá entupida... puta de vida!) e pronto estamos imortalizadas, nisto, através desta noite, dorme bem e nao me sujes a almofada... e assim me vou, acabar a minha e comer qualquer coisita, assim me vou igual como vim.
Sílvia e Lília: E temos dito.
Brazuca: E a cervejita gostosa no fundo da barriga.
(Toda a gente se mete nesta conversa, é aquela merda...)**
*texto escrito a muitas mãos
**mas sempre com um sorriso

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Em desfocado...


... à procura!
Um dia havemos de encontrar amiga.
Um dia, a calcorrear uma das nossas ruas, no bairro (com direito a cambalhota), em Évora (com a caipirinha), no Porto (com nevoeiro), na Nova Zelândia (com os sonhos)... vamos encontrar o que os olhos querem ver e o que a alma pede.
Quero-te ver feliz!!!
Beijos mau feitio

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Quero levar-me demasiado a sério...

Até hoje, sempre prezei muito o facto de não me levar demasiado a sério; era uma questão de orgulho não o fazer; mais, uma questão de sanidade; quando não nos levamos assim tão a sério ao ponto de começar a achar que podemos acabar com a fome no mundo ou que conseguimos criar um novo sistema político-social mais válido (um que não inclua nem uma segurança social pouco segura, que come a cabeça ao pobre, nem recibos verdes) somos capazes de perceber melhor o nosso lugar no mundo, sabemos o nosso tamanho e se calhar até acabamos, de facto, a fazer coisas válidas, porque o nosso foco de atenção não está em sermos sérios, mas em levar o que se passa à nossa volta a sério.
Saber rir de nós próprios também ajuda (quem se leva demasiado a sério por norma não se sabe rir, não tem ponta de sentido de humor... Abençoados!). Rir é terapêutico e ajuda a ultrapassar muitas das paranóias inerentes à qualidade de ser humano. Por exemplo, sempre apreciei, na minha pessoa e nas outras, a capacidade de rir se escorregamos na lama e acabamos estatelados numa poça de água em público, ou se por acidente espirramos violentamente para cima daquela pessoa que ainda há 10 minutos estávamos a tentar seduzir com o nosso olhar 44, aquele que se ensaia à frente do espelho e que envolve pestanejar de forma sexy, e estamos a falar da pessoa que já vizualizávamos como o pai dos nossos filhos, não de um mafarrico qualquer. Obviamente a ideia é que desta forma o resto do mundo se ria connosco e não de nós!
Mas hoje mudei de opinião.(Se bem que ideia já andava a germinar à um tempo, não foi assim tão súbita a mudança.)
E mudei de opinião porque comecei a perceber que o mundo adora pessoas que se levam a sério... O mundo adora ouvir a opinião e beber as palavras de quem se leva a sério... Adora a seriedade demagógica, o egocentrismo e o egoísmo de quem se leva demasiado a sério... Adora odiar quem se leva demasiado a sério!
Basta olhar à volta para constatar esta realidade; se ligarmos a televisão vemos lá uma data de pessoas a dar a sua opinião inútil, em programas inúteis, de forma séria, televisão que, no entanto, toda a gente continua a ver; se vamos a um posto médico porque se nos inflama um ovário, por exemplo, e esperamos 4 horas para ser atendidos, acabamos por encontrar um/a senhor/a doutor/a que se leva demasiado a sério, mas que não nos leva nem a nós nem às nossas maleitas a sério, e que com sorte ainda nos bufa por termos lá ido interromper um qualquer momento de seriedade que estivesse a ter consigo próprio, no entanto o estatuto de doutor ainda intimida muita gente o que faz com que nunca nos queixemos de ser tratados como gado nas mãos destas pessoas tão sérias.
Aliás quantos de nós não convivem, na intimidade do nosso círculo de amigos e conhecidos, com uma ou outra pessoa que se leva demasiado a sério; daquelas (lá está!) que nunca se riem das piadas, e que ficam ofendidos com quem as faz; e que expressam sempre posições muito fortes e importantes sobre: o estado do mundo, da arte, da economia, da comida, do preço das corridas de táxi, etc., etc., etc. Que são tão sérios, tão sérios que nos irritam ao ponto do frémito de vómito, primeiro porque passam mais tempo a pensar na seriedade com que têm de expor todas as suas opiniões do que a tentar mudar alguma coisa, segundo porque ninguém atura sempre gente que está constantemente zangada com o mundo (as pessoas que se levam demasiado a sério são, por norma, umas grandes furiosas dramáticas, com grandes raivas interiores!), mas a verdade é que continuamos a partilhar a vida com algumas pessoas destas e a levá-las a sério! Quanto mais não seja mantêmo-las por perto para nos lembrarem de porque é que não somos tão sérios e chatos quanto eles e depois porque é sempre um prazer revirar os olhos enquanto os ouvimos.
Mas a verdade é que estas pessoas causam impacto!!! Nunca se fica indiferente a quem se leva demasiado a sério, e quer queiramos quer não acabamos a dar-lhes atenção (algumas vezes sob coacção física, que esta gente é perigosa e sabe fazê-la bem!).
Foi por causa de tudo isto que mudei de opinião... Quero ser ouvida, quero ser irritante, quero que vão para casa a falar de mim, bem ou mal, não importa! E acima de tudo ter essa sensação magnífica de que o mundo gira à minha volta ao mesmo tempo que está contra mim.
Está decidido! Mal acabe de escrever isto vou tornar-me uma pessoa que se leva demasiado a sério... E depois, obviamente, vou escrever outro texto, mais sério, em que discutirei uma qualquer parvoíce ainda maior do que esta, mas com muita seriedade intelectual e com algumas nuances emocionais que podem variar entre a melancolia séria e a zanga interior, também ela séria.
Espero irritar-vos bastante...

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Sobre o sabor das cerejas...

Mordi-te porque quando te beijei o ombro me lembrei do sabor das cerejas!
A sensação da tua pele na minha boca trouxe-me de volta a memória de um dia de chuva, há muito tempo atrás, quando ainda não conhecia o teu sabor, só o das cerejas... Um tempo em que não sabia sequer que alguém pudesse saber assim, especificamente a cerejas num dia de chuva.
É tão raro comê-las em dias assim!
Foi num daqueles junhos nortenhos em que o céu está carregado de nuvens, em que no ar sentes uma estranha electricidade, que arrepia os cabelos da nuca; e que, se fechares os olhos e ouvires com muita atenção, consegues sentir na pele os múrmurios de vozes longínquas arrastadas pelo vento, carregadas de desejos... Eu não saí nesse dia, recusei um convite de cinema para ver uma qualquer película americana destinada a adolescentes apaixonados e preferi ficar sozinha à espera da chuva que me era prometida.
E ela chegou, com um trovão de aviso, primeiro em bátegas fortes e carregadas, como uma amante furiosa que bate nos vidros e exige entrar, suave depois, transformando a sua voz no lamento de quem foi deixado à sua sorte sem amor.
Quando a chuva serenou abri a janela e deixei-me ali ficar, nem sei por quanto tempo, com a água a bater-me na cara; a reconhecer o cheiro da terra molhada e a comer cerejas maduras; a experimentar, como se fosse a primeira vez: a textura da cor vermelha nos meus dentes, na minha língua; o quente do fruto, o frio da água e o cheiro cru da terra.
E este é o sabor da tua pele na minha boca, por isso não resisti a morder-te o ombro depois do beijo. Precisava de ter a certeza, de saber da tua cor nos meus dentes, da tua textura; para guardar, sem equívocos, o teu paladar e cheiro nas minhas memórias e para me relembrar do sabor das cerejas num dia de chuva.